Domingo, Julho 16, 2006

"Tanto que eu não te disse..."




(Imagem daqui)


"Querido:

Tudo acabou.
Passaram-se quatro dias. O que eu sinto? Nostalgia dos bons momentos. Saudades deles. Isso é o que posso dizer às pessoas.

Racionalmente posso tentar explicar tantas coisas: "...
isto é um ciclo vicioso: eu fui deixando de ser estimulante e como resposta, ele foi-se afastando".

O que sinto e não consigo explicar de forma que me entendam (porque se perde no meu começo), é uma tristeza de
abandono que vem de longe, sei lá.

Apesar de ter sido eu a deixar-te, sinto-me abandonada.

Estou ferida.
Como se não me pudessem amar toda. Como se tudo o que sou, toda a história que em mim vive, as minhas fragilidades, as minhas paixões, nada valessem.

Quando nos falta o primeiro sorriso, achamo-nos bichos e acreditamos ter que esconder as escamas, as feridas, para podermos ser amados.

Isto é a vida (ou a morte) que vive em mim. Posso transformá-la, ou deixar, sabe-se lá porquê, que
sempre me persiga. Posso vir a acreditar que amem todos os bichos que existem dentro de mim ou andar para aí a fingir toda a vida: tenho vergonha de mim e acabo a odiar, pois julgo ser dos outros a culpa por me esconder.

Culpa que não será deles de certeza
, mas que passa a sê-lo. Desencontros permanentes que vão pesando sobre mim.

Estás a ver como é tímido o limite entre a sanidade e a pequena patologia?

Acredito no amor, naquele amor, o único que deve andar em outros papéis que não estes, mas que encontrarei, ou me descobrirá um dia, num passeio à mata. E chama-me infantilmente romântica se quiseres, mas esse amor dedicar-se-á a desmanchar tudo o que em mim sofre e a restituir tudo o que me foi roubado. Far-me-á sentir merecedora de todo o Mundo não só pelas minhas virtudes, mas também (e quem sabe se, principalmente) pelas minhas imperfeições. Espero também amá-lo e não o afastar por não me sentir merecedora de tanto. É que isso também acontece!

No dia em que deixar de acreditar posso enlouquecer!
Por isso chamo-me louca quando embrulhada em cobertores, choro convulsivamente a tua ausência; é o medo da ideia de não encontrar esse alguém, ou de o ter já perdido. Depois, esforço-me por acreditar que não.

Não te vou mostrar esta carta, assim como não te entregarei a outra. Porquê? Enlouquece-me querer saber as razões de tudo e
hoje não quero ser louca."


(Marta Gautier in Tanto que não te disse)


8 Delusions:

magude disse...

"Tanto que eu não te disse..." e tão pouco para dizer tanto... Gostei.

Kyia disse...

"Tanto que eu não te disse..."

Foi isso mesmo: o tanto que ficou por dizer... por contar... por sentir...


Tanto foi que hoje só posso dizer:

"No dia em que deixar de acreditar posso enlouquecer!"


Beijinho grande***

Del Giorgio disse...

n gostei nada do fim... eu a pensar q era 1 texto teu, eu farto de me rir com as tuas desgraças e a pensar q tavas paí a sofrer e no fim vejo q é doutra gaja. ora poça!!

Daniel Aladiah disse...

Querida Hrrada
Em abstrato, serve para quem esteja como relata o texto: tu não tens culpa, tu tens razão em querer amar assim, existe alguém que te aceitará como és, não és louca, tão somente uma mulher capaz de amar e que ainda não foi bem amada...
um beijo
Daniel

inês disse...

Post divino que nos faz viajar...

Beijinho

eco de mim disse...

sempre achei q ñ vale a pena pensar no q ñ se disse, o q interessa é o q aconteceu!

Rute Malagueta disse...

Acredito siim...e enquanto acreditar...sorriu=)
nem que acreditar simplesmentee..e ao mesmo tempo tanto...com tanta força...que me motiva por seguir em frentee...amei o desenrolar da história...o fim nao foi o que estava na minha espectativa..mas...goztei.=)
beijinhu...Keep Going*

Anónimo disse...

o livro e um maximo adoro. fala de coisas que sao verdade, e eu revi-me em certas situações